20170628

Podes crer, amizade: livro revive movimento Black Rio

Bem-vindo ao Brasil da década de 1970. Um país onde reina a igualdade, desde que sua pele seja da cor adequada. Impera a liberdade, desde que não ameace a soberania nacional. Abunda a fraternidade, desde que você saiba o seu lugar. Foi neste contexto de instituições em pleno funcionamento que dos subúrbios cariocas emergiu uma cultura musical para dar voz, visibilidade e afirmação à juventude negra. A história é recuperada agora com passos coreografados, gírias e muito ritmo pelo livro 1976 – Movimento Black Rio, de Luiz Felipe de Lima Peixoto e Zé Octávio Sebadelhe.



Em 17 de julho daquele ano, uma reportagem assinada por Lena Frias no Jornal do Brasil descreveu a onda que bombava em mais de 300 bailes periferia adentro. Sem querer, o título da matéria acabou batizando o fenômeno, que já existia havia pelo menos cinco anos e até então não tinha nome nem se organizava como movimento: “Black Rio, o orgulho (importado) de ser negro no Brasil”. Em quatro páginas, a zona sul era apresentada a equipes de som e discotecários despejando funk e soul americanos para pistas lotadas por uma moçada guerreira e esperta.

Furacão 2000, Black Power e Cash Box disputavam o posto de donas da parafernália sonora mais potente. Mister Funky Santos, Ademir Lemos e Big Boy competiam para ver quem rolava os maiores sucessos do momento nas carrapetas. Gerson King Combo, Carlos Dafé e Banda Black Rio pediam passagem com trabalhos autorais. E, acima de tudo e de todos, pairava Tim Maia, representante-mor do groove gringo adaptado para a realidade local. De repente, a MPB descobria que “negro é lindo” e absorvia as influências. O cidadão de bem ligava a televisão e se deparava com um balanço diferente na trilha da novela.



Em uma época de ânimos acirrados e polaridade latente, a exposição dos brothers na mídia incomodava geral. A direita temia pela radicalização da luta contra o racismo. A esquerda reagia contra o que considerava um desprezo ao samba como legítima música dos despossuídos. O futuro próximo desmoralizaria ambos os lados. O movimento não morreria; iria se dispersar por diversos estilos. Um deles seria o funk carioca que pariu Anitta, hoje invadindo as paradas dos Estados Unidos. Não deixa de ser uma justiça poética para um movimento acusado de somente copiar o que vinha de fora.

(coluna publicada hoje no Diário Catarinense)

20170620

Mallu Mulher

Mallu Magalhães teve que se mudar para a outra margem do Atlântico para fazer seu disco mais brasileiro. No quarto trabalho solo, Vem, a paulistana radicada em Lisboa há quatro anos larga o folk com que despontou em 2007 e abraça ritmos nacionais. Conforme a relação do freguês com a obra da autora, a sonoridade dominante no repertório é digerida como demonstração inconteste de maturidade artística e pessoal ou simplesmente uma guinada sem volta rumo à MPB “universitária”. Ambas as percepções se justificam.



A polêmica em torno do clipe de “Você Não Presta”, acusado de explorar dançarinos negros, colocou em segundo plano a excelência instrumental do álbum. Com produção do consorte Marcelo Camelo e arranjos do craque Mario Adnet, os timbres certos nos lugares certos com a potência certa realçam o frescor retrô de canções como “Culpa do Amor” ou “Pelo Telefone”. Uma suavidade que irriga a sensação de que tudo é diminutivo demais: o samba vira sambinha; a bossa, bossinha; borrando a fronteira entre delicadeza e diluição.

Melhor sorte têm as músicas que não representam a essência do disco. As desbragadas “Será que um Dia” e “Navegador” seriam quase bregas, não fosse Mallu o suprassumo da fineza. “Love You”, a única em inglês, lembra a musa indie de uma nota só que ela não quis se tornar. E os toques de fado de Linha Verde remetem à cidade onde mora. Aos 24 anos, mãe de Luísa, 2, a mocinha que surgiu ainda adolescente cantando “Tchubaruba” tornou-se uma “gata da vida”, como se define em São Paulo. Agora é que vai ficar bom.

Solo da chave-mestra
Um disco solo de um cara que lidera uma banda com somente mais um componente? E o segundo, já?! Pois é. Para quê? Aí vale aquele clichê: em Waiting on a Song, Dan Auerbach dá vazão a abordagens que não acha conveniente – afinal, ele manda – adotar em seu grupo-matriz, o Black Keys. A saber, uma pegada que descamba para o bailinho sessentista, mas engrena mesmo quando avança pelo velho oeste (“King of a One Horse Town”), encarna um Jack Johnson rural (“Never in My Wildest Dreams”) ou apela para a sexy “Cherrybomb”.




 ANÇAMENT
OS



Boogarins, Lá Vem a Morte – Os goianos lisérgicos disseram que se inspiraram muito em artistas experimentais como Flying Lotus no sucessor do aclamado Manual (2015). De fato, prevalecem programações eletrônicas, colagens e efeitos diversos. No meio de tanto conceito, brilha “Onda Negra”, careta como uma boa canção.



Snoop Dogg, Neva Left – Nada contra fazer um álbum que expressasse as várias fases da carreira, como o rapper anunciou. O problema é que em sua trajetória não faltam exercícios de autoindulgência, pilhas erradas ou só preguiça mesmo. Ainda bem que “Go On” evoca o groove de seu último grande trabalho, Bush (2015).



(coluna publicada hoje no Diário Catarinense)

20170607

Você coloca e o mundo fica malucão, diferente do que é

Tudo bem, o brasileiro sempre gostou de psicodelia na música. Basta notar a quantidade de drogas nas paradas de sucesso, hahaha. Sério, de uns tempos para cá bandas que propõem percepções extrassensoriais tem brotado na cena nacional como cogumelos em ambiente úmido e quente. O mais novo fruto desse jardim caleidoscópico chama-se My Magical Glowing Lens, que está estreando em disco com Cosmos. O barato chega neste sábado (10) a Florianópolis, onde os capixabas se apresentam como uma das atrações do 2º Festival Saravá de Cultura Independente.

— Identifico a psicodelia como o movimento da música que luta por igualdade, por uma elevação da alma. Quem faz quer adentrar em algumas coisas que a gente esqueceu, que não entra mais porque fica muito na superficialidade — descreve via celular a guitarrista e vocalista Gabriela Deptulski, uma filósofa que trocou a academia por acordes e versos.



A moça de 28 anos criou o My Magical Glowing Lens após ouvir Tame Impala, os australianos que ajudaram a reconverter a lisergia sonora em tendência. No caso, houve ainda uma razão de ordem prática: se Kevin Parker conseguia fazer aquilo tudo sozinho, ela também poderia tentar. Com microfone de notebook mesmo, começou a gravar. Primeiro bateria, depois guitarras, voz e baixo. A ideia era “criar música para quem gosta de buscar algo além da matéria, um aparato que instigasse esse tipo de pensamento, de libertação”. Daí as tais “brilhantes lentes mágicas” do nome.

— Você coloca e o mundo fica malucão, diferente do que é.

De fato, o incauto viajante põe Cosmos para rolar e se impressiona. As 11 faixas se desenrolam mais fluidas e densas do que as quatro contidas no EP que Gabriela soltou em 2013, quando ainda tinha somente seus insights como companhia e o inglês como idioma das letras. A incorporação de um baixista, um baterista e um tecladista a deixou solta para se aprofundar nos climões que embalam “Sideral”, “Raio de Sol” ou “Tente Entender”. Lá pelo finalzinho, “Supernova” até ensaia dar uma aloprada, mas o tom geral é de transe e bonomia, sem chance para bad trips.

— Não sei nem aonde quero ir, quanto mais aonde chegar. Vamos continuar fazendo música da forma mais bonita, mais sincera possível. A música é muito transformadora nesse sentido, de fazer a gente enxergar coisas que não veria de outro jeito — afirma.

O discurso seria pertinente em qualquer situação, mas torna-se mais oportuno diante do obscurantismo medieval vigente. Junto com expoentes como Boogarins, Supercordas, Tagore ou Bike, o My Magical Glowing Lens se alinha ao bloco de artistas que, entre a descrença e a alienação, adota um caminho que, “querendo ou não, é uma forma de protesto, mesmo não tendo letras políticas”. Ou, como acredita a musicista, “quando você fala de liberdade, já está protestando contra algo que lhe foi imposto”.

(coluna publicada hoje no Diário Catarinense)