20170713

O que é música comercial: entenda

No país onde a definição de escândalo precisa de atualizações diárias, quase ninguém se importou com o surgimento da “banda institucional” de uma grife carioca. Para quem está por fora, a tal confecção feminina contratou um grupo – na verdade, uma dupla chamada Flor de Sal – para a representar na música. Antes de gravar, os integrantes receberam orientações do marketing da companhia sobre temas e influências, incluindo uma lista de palavras que traduziriam o lifestyle da marca. Daí resultou um disco com 10 faixas, lançado nos serviços de streaming pelo selo da própria cliente.



Hmmm, interessante. Possíveis reações: um, o público ouve sem saber do que se trata e se sente enganado ao descobrir; dois, o público sabe do que se trata e nem ouve. Em ambas, os responsáveis pela estratégia desprezam uma condição elementar para que a experiência funcione: quando é música que se procura, é música que se deve ouvir, não propaganda. Talvez fosse muito mais eficaz a grife pagar alguma artista com o qual se identifique para associar sua marca a ela. Ou simplesmente vesti-la, uma parceria simpática às claras e sem maiores consequências se velada.

Não é propaganda, é branding, dizem especialistas. Beleza. Música e publicidade sempre andaram juntas mesmo. Via patrocínio. Nos jingles. Em canções vendidas para campanhas. Tudo isso é conhecido e aceito, jogo jogado. Mas a zona cinzenta entre uma e outra tem que ser muito acessada com muito tato para corresponder. O tosco merchandising em letras desfila elegância ímpar perto da adoção de uma espécie de banda customizada para transformar branded content em música. Ninguém quer que ninguém ganhe dinheiro com o talento que tem, seria injusto demais. A gente só acha que, assim como um tanto de integridade, um pouco de cinismo é fundamental.

***

Ah, é. Parabéns, rock.


E por falar em exposição na mídia
Vitrine das boas para a cultura pop em Florianópolis: o sagaz Marcelo Siqueira está com um programa pautado pela música, artes plásticas, cinema, fotografia e demais reinações criativo-comportamentais que brotam do fértil solo local ou aportam na ilha. O negócio atende pelo nome de Emenda, é atualizado toda semana e já chegou à quinta edição. Na terceira, por exemplo, há uma entrevista com o ex-vocalista do Dazaranha, Gazu, que é reveladora pelo que não diz. Em vez de ficar batendo na surrada tecla de por que ele saiu da banda, a conversa gira em torno do presente e do futuro.




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Don L, Roteiro para Aïnouz Vol. 3 – O primeiro (apesar do número) volume da trilogia prometida pelo rapper cearense esbanja letras espertas, calcadas no vocabulário da juventude conectada, e batidas que fogem do lugar comum. O cara é bom, mas falta o hit, como foi “Chapei” no ano passado.



Haim, Something to Tell You – O trio de irmãs californianas goza de uma moral entre certa parcela do circuito hipster que é difícil de entender. No segundo disco predomina um pop radiofônico que, quando dá liga, lembra Sheryl Crow. A mais, senão única, faixa convincente é “You Never Knew”.



(coluna publicada hoje no Diário Catarinense)

20170705

5 discos para lembrar (ou esquecer) da primeira metade deste ano



Como já é tradição, a passagem da primeira metade do ano impõe um balanço do que de bom, de feio, de sujo e de malvado saiu até agora. Quem desponta como favorito para a lista final, quem queimou a largada, quem será ainda lembrado em dezembro é coisa para se preocupar somente se por algum acaso as instituições deixem de funcionar. Por ora, o que importa é sublimar a apatia reinante e saudar a batida contagiante, o refrão afiado, a combinação de notas e timbres que parece já ter sido feita antes, de tão azeitada. Abaixo, cinco exemplos (em ordem alfabética) de discos que se enquadraram nesses parâmetros. Não, não esculache a lista: faça a sua e seja feliz.



Bike, Em Busca da Viagem Eterna | Expoente da renascença psicodélica brasileira, o quarteto paulistano flana bonito no segundo disco. Sol, grão de poeira, brisa, sonho profundo, fumaça roxa, essência, paz celestial, mar, portas da percepção, sapos flamejantes, montanha sagrada e estrelas formam a paisagem do caminho transcendental percorrido pelo ciclista cósmico. O destino é incerto, mas nem tão longe assim. A atmosfera densa é que deixa os movimentos mais lentos. OUÇA “Do Caos ao Cosmos”, “A Divina Máquina Voadora”, “O Retorno de Saturno”.



Curumin, Boca | O quarto álbum do baterista faz-tudo tem conceito, esbanja modernidade, investe em experimentações e talz. Bem da hora. Mas é ao assumir a (inegável) vocação pop já mostrada em 2011 com “Compacto” que o negócio fica facílimo de digerir. O samba pode ser torto; a bossa nova; errada; o reggae; enviesado: quando o refrão pega e o groove flui gostoso, a brisa refresca da cabeça ao baixo ventre, sem escalas. Tão brasileiro, tão universal, como manda a cartilha contemporânea. OUÇA “Terrível”, “Boca Cheia”, “Prata, Ferro, Barro”.



Dan Auerbach, Waiting on a Song | Faz tempo que a metade mais reluzente do Black Keys atingiu um estágio de regularidade que garante no mínimo nota 7 para sua música. Se estiver muito inspirado, porém, é grande a chance de o nível chegar à excelência. A segunda incursão solo do cidadão segue esse padrão. Nas faixas menos brilhantes, desfila como um bailinho retrô. Nos momentos em que recebe a visita das musas, enternece com doçura e atiça com picância. OUÇA “King of a One Horse Town”, “Never in My Wildest Dream”, “Cherrybomb”.



Jesus and Mary Chain, Damage and Joy | Dezenove anos se passaram sem disco novo dos irmãos Jim e William Reid. Neste período, o rock se perdeu, o rap fez fortuna, a eletrônica virou axé. E ninguém superou – ou se interessou em superar – a manha dos manos escoceses em conjugar barulho com melodia. A surpresa é que eles voltaram mais alegres, com uma euforia quase adolescente. Mesmo soando meio datado, ainda exala um frescor capaz de seduzir novas gerações que não estão paradinhas. OUÇA “Amputation”, “All Things Pass”, “Always Sad”.



Sleaford Mods, English Tapas | Que bom que, em meio à afetação generalizada, sempre aparece um bando de desajustados fingindo-se de burros para desvirtuar um ou outro jovem sonhador. No caso, dois ingleses cheios de sotaque e inconformismo, como uma versão reduzida e atualizada dos Sex Pistols. A música é simples, direta, despida de quaisquer adereços que atenuem o nobre propósito de dar uma chacoalhada na apatia reinante. Ou apenas aloprar. O (dedo do) meio é a mensagem. OUÇA “B.H.S.”, “Just Like We Do”, “Moptop”.

(coluna publicada hoje no Diário Catarinense)

20170628

Podes crer, amizade: livro revive movimento Black Rio

Bem-vindo ao Brasil da década de 1970. Um país onde reina a igualdade, desde que sua pele seja da cor adequada. Impera a liberdade, desde que não ameace a soberania nacional. Abunda a fraternidade, desde que você saiba o seu lugar. Foi neste contexto de instituições em pleno funcionamento que dos subúrbios cariocas emergiu uma cultura musical para dar voz, visibilidade e afirmação à juventude negra. A história é recuperada agora com passos coreografados, gírias e muito ritmo pelo livro 1976 – Movimento Black Rio, de Luiz Felipe de Lima Peixoto e Zé Octávio Sebadelhe.



Em 17 de julho daquele ano, uma reportagem assinada por Lena Frias no Jornal do Brasil descreveu a onda que bombava em mais de 300 bailes periferia adentro. Sem querer, o título da matéria acabou batizando o fenômeno, que já existia havia pelo menos cinco anos e até então não tinha nome nem se organizava como movimento: “Black Rio, o orgulho (importado) de ser negro no Brasil”. Em quatro páginas, a zona sul era apresentada a equipes de som e discotecários despejando funk e soul americanos para pistas lotadas por uma moçada guerreira e esperta.

Furacão 2000, Black Power e Cash Box disputavam o posto de donas da parafernália sonora mais potente. Mister Funky Santos, Ademir Lemos e Big Boy competiam para ver quem rolava os maiores sucessos do momento nas carrapetas. Gerson King Combo, Carlos Dafé e Banda Black Rio pediam passagem com trabalhos autorais. E, acima de tudo e de todos, pairava Tim Maia, representante-mor do groove gringo adaptado para a realidade local. De repente, a MPB descobria que “negro é lindo” e absorvia as influências. O cidadão de bem ligava a televisão e se deparava com um balanço diferente na trilha da novela.



Em uma época de ânimos acirrados e polaridade latente, a exposição dos brothers na mídia incomodava geral. A direita temia pela radicalização da luta contra o racismo. A esquerda reagia contra o que considerava um desprezo ao samba como legítima música dos despossuídos. O futuro próximo desmoralizaria ambos os lados. O movimento não morreria; iria se dispersar por diversos estilos. Um deles seria o funk carioca que pariu Anitta, hoje invadindo as paradas dos Estados Unidos. Não deixa de ser uma justiça poética para um movimento acusado de somente copiar o que vinha de fora.

(coluna publicada hoje no Diário Catarinense)

20170620

Mallu Mulher

Mallu Magalhães teve que se mudar para a outra margem do Atlântico para fazer seu disco mais brasileiro. No quarto trabalho solo, Vem, a paulistana radicada em Lisboa há quatro anos larga o folk com que despontou em 2007 e abraça ritmos nacionais. Conforme a relação do freguês com a obra da autora, a sonoridade dominante no repertório é digerida como demonstração inconteste de maturidade artística e pessoal ou simplesmente uma guinada sem volta rumo à MPB “universitária”. Ambas as percepções se justificam.



A polêmica em torno do clipe de “Você Não Presta”, acusado de explorar dançarinos negros, colocou em segundo plano a excelência instrumental do álbum. Com produção do consorte Marcelo Camelo e arranjos do craque Mario Adnet, os timbres certos nos lugares certos com a potência certa realçam o frescor retrô de canções como “Culpa do Amor” ou “Pelo Telefone”. Uma suavidade que irriga a sensação de que tudo é diminutivo demais: o samba vira sambinha; a bossa, bossinha; borrando a fronteira entre delicadeza e diluição.

Melhor sorte têm as músicas que não representam a essência do disco. As desbragadas “Será que um Dia” e “Navegador” seriam quase bregas, não fosse Mallu o suprassumo da fineza. “Love You”, a única em inglês, lembra a musa indie de uma nota só que ela não quis se tornar. E os toques de fado de Linha Verde remetem à cidade onde mora. Aos 24 anos, mãe de Luísa, 2, a mocinha que surgiu ainda adolescente cantando “Tchubaruba” tornou-se uma “gata da vida”, como se define em São Paulo. Agora é que vai ficar bom.

Solo da chave-mestra
Um disco solo de um cara que lidera uma banda com somente mais um componente? E o segundo, já?! Pois é. Para quê? Aí vale aquele clichê: em Waiting on a Song, Dan Auerbach dá vazão a abordagens que não acha conveniente – afinal, ele manda – adotar em seu grupo-matriz, o Black Keys. A saber, uma pegada que descamba para o bailinho sessentista, mas engrena mesmo quando avança pelo velho oeste (“King of a One Horse Town”), encarna um Jack Johnson rural (“Never in My Wildest Dreams”) ou apela para a sexy “Cherrybomb”.




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Boogarins, Lá Vem a Morte – Os goianos lisérgicos disseram que se inspiraram muito em artistas experimentais como Flying Lotus no sucessor do aclamado Manual (2015). De fato, prevalecem programações eletrônicas, colagens e efeitos diversos. No meio de tanto conceito, brilha “Onda Negra”, careta como uma boa canção.



Snoop Dogg, Neva Left – Nada contra fazer um álbum que expressasse as várias fases da carreira, como o rapper anunciou. O problema é que em sua trajetória não faltam exercícios de autoindulgência, pilhas erradas ou só preguiça mesmo. Ainda bem que “Go On” evoca o groove de seu último grande trabalho, Bush (2015).



(coluna publicada hoje no Diário Catarinense)

20170607

Você coloca e o mundo fica malucão, diferente do que é

Tudo bem, o brasileiro sempre gostou de psicodelia na música. Basta notar a quantidade de drogas nas paradas de sucesso, hahaha. Sério, de uns tempos para cá bandas que propõem percepções extrassensoriais tem brotado na cena nacional como cogumelos em ambiente úmido e quente. O mais novo fruto desse jardim caleidoscópico chama-se My Magical Glowing Lens, que está estreando em disco com Cosmos. O barato chega neste sábado (10) a Florianópolis, onde os capixabas se apresentam como uma das atrações do 2º Festival Saravá de Cultura Independente.

— Identifico a psicodelia como o movimento da música que luta por igualdade, por uma elevação da alma. Quem faz quer adentrar em algumas coisas que a gente esqueceu, que não entra mais porque fica muito na superficialidade — descreve via celular a guitarrista e vocalista Gabriela Deptulski, uma filósofa que trocou a academia por acordes e versos.



A moça de 28 anos criou o My Magical Glowing Lens após ouvir Tame Impala, os australianos que ajudaram a reconverter a lisergia sonora em tendência. No caso, houve ainda uma razão de ordem prática: se Kevin Parker conseguia fazer aquilo tudo sozinho, ela também poderia tentar. Com microfone de notebook mesmo, começou a gravar. Primeiro bateria, depois guitarras, voz e baixo. A ideia era “criar música para quem gosta de buscar algo além da matéria, um aparato que instigasse esse tipo de pensamento, de libertação”. Daí as tais “brilhantes lentes mágicas” do nome.

— Você coloca e o mundo fica malucão, diferente do que é.

De fato, o incauto viajante põe Cosmos para rolar e se impressiona. As 11 faixas se desenrolam mais fluidas e densas do que as quatro contidas no EP que Gabriela soltou em 2013, quando ainda tinha somente seus insights como companhia e o inglês como idioma das letras. A incorporação de um baixista, um baterista e um tecladista a deixou solta para se aprofundar nos climões que embalam “Sideral”, “Raio de Sol” ou “Tente Entender”. Lá pelo finalzinho, “Supernova” até ensaia dar uma aloprada, mas o tom geral é de transe e bonomia, sem chance para bad trips.

— Não sei nem aonde quero ir, quanto mais aonde chegar. Vamos continuar fazendo música da forma mais bonita, mais sincera possível. A música é muito transformadora nesse sentido, de fazer a gente enxergar coisas que não veria de outro jeito — afirma.

O discurso seria pertinente em qualquer situação, mas torna-se mais oportuno diante do obscurantismo medieval vigente. Junto com expoentes como Boogarins, Supercordas, Tagore ou Bike, o My Magical Glowing Lens se alinha ao bloco de artistas que, entre a descrença e a alienação, adota um caminho que, “querendo ou não, é uma forma de protesto, mesmo não tendo letras políticas”. Ou, como acredita a musicista, “quando você fala de liberdade, já está protestando contra algo que lhe foi imposto”.

(coluna publicada hoje no Diário Catarinense)

20170531

Dois brasileiros que não desistem nunca

Depois de muita onda e pouco caldo, o Brasil-il-il volta a impor presença na playlist de 2017. E com dois discos de uma vez, sinal inequívoco de que as instituições estão funcionando. Um é Galanga Livre, de Rincon Sapiência. Outro é Boca, de Curumin. Ambos de São Paulo, relativamente conhecidos – somente e olhe lá – pelo nicho que se informa sobre música. Aqui mesmo no jornal, lugar de gente jovem & conectada, seus nomes despertam reações desencontradas. “Curumin apareceu como dica para mim no Spotify, vale?”, consulta uma colega. “Rincon Sapiência, massa”, confirma outra.



Danilo Albert Ambrosio, o Rincon Sapiência, está no radar pelo menos desde 2010, quando despontou com “Elegância”. Daí em diante, assinou com o selo do produtor Rick Bonadio, faturou algum (é o que se espera) estrelando comercial da Caixa e, entre um corre e outro, ia soltando suas rimas a conta-gotas. Afastou-se do profissional que revelou Mamonas Assassinas, Charlie Brown Jr. e NX Zero sem lançar o aguardado disco cheio, com uma pá de faixas para a moçada. Só agora, dirigido por William Magalhães (Banda Black Rio), ele estreia com um álbum completo para chamar de seu.

A lenda do nobre africano Galanga, tornado Chico Rei depois de capturado e vendido como escravo, abre a contenda via “Crime Bárbaro”. A impressão é de que o dedo na cara vai imperar, até o groove tomar conta em “A Volta pra Casa”. Tem espaço inclusive para romantismo, embalado por “A Noite É Nossa” e “Amores às Escuras”. Somadas a singles que já vagavam por aí, como “A Coisa Tá Preta” (uma das melhores do ano passado) e “Ponta de Lança”, perfazem um disquinho bastante palatável, em que a maior virtude – não se limitar à ladainha monocórdia – é também a maior fraqueza: como cantor, o rapper fica devendo.



Luciano Nakata Albuquerque, o Curumin, surgiu em 2005 atirando para diversas direções. A sonoridade contemporânea movida a samba torto, bossa nova errada e reggae de bamba de seus três trabalhos anteriores lhe renderam elogios da crítica e brodagens na gringa. Em um mundo menos imperfeito, teria ficado mais popular a partir de 2011 com “Compacto”. Do hit que não vingou ao estágio atual, pouca coisa se alterou. Continua não havendo nenhuma razão concreta para ele acreditar que desta vez será diferente, apesar da inegável vocação pop soterrada pelo conceito de sua nova empreitada.

Para descobri-la de graça, é necessário superar uma série de incursões que desmontam o formato canção, tão modernas quanto impenetráveis – andar demais com Ava Rocha, que ainda assina a capa, dá nisso. Felizmente, o baterista faz-tudo acerta a mão nas jamaicanas “Boca de Groselha” e “Prata, Ferro, Barro”, mantém a vibração lá no alto em “Terrível” e atinge o baixo ventre com precisão em “Boca Cheia”. Pesando tudo na balança, é grande a probabilidade de eu chegar a dezembro tendo ouvido bem mais Curumin do que Rincon Sapiência. Mas isso não é uma competição, né? E eu adoro minhas colegas.

(coluna publicada hoje no Diário Catarinense)

20170527

Os discos que ficaram órfãos sem Kid Vinil

Nos obituários escritos em memória a Kid Vinil, não raro o artista falecido há uma semana foi descrito como “uma pessoa muito doce”. Não era elogio para dourar a biografia de quem já transcendeu este plano. Na meia dúzia de vezes em que estive com ele, a gentileza e a ternura que demonstrou foram muito maiores do que seu vasto conhecimento musical. Uma delas foi em 2000, para ouvi-lo falar de seus discos. Como uma forma de homenageá-lo, segue abaixo o resultado do encontro, publicado na seção Minha Coleção da extinta – e, circunstancialmente, saudosa – revista Bizz de junho daquele ano. Esteja onde estiver, nunca deixe o bolachão parar de rodar, Kid.



Disco é apelido

Da porta da sala do apartamento dá para ver seis torres giratórias, com capacidade para uns 500 CDs cada. Em volta, estantes por toda a parte, abarrotadas de vinis. Para onde se olha, estão prateleiras e mais prateleiras com discos. Num canto, o espaço das caixas especiais, dos mais variados artistas, tamanhos e formas. A riqueza de detalhes da paisagem fonográfica é tanta que torna ridículo qualquer trocadilho com a coleção de um sujeito chamado Kid Vinil. O cara tem disco que não acaba mais. “Uns 10 mil LPs dos anos 1960 e 1970 na casa dos meus pais, 5 mil aqui e 6 mil CDs”, calcula o feliz proprietário, que organiza o acervo de um jeito todo particular. “Não tem ordem nenhuma, mas acho o que quero em segundos”, garante.

Como que para provar o que disse, Kid pega de uma estante o compacto de “Magical Mistery Tour”, dos Beatles. “O primeiro disco que comprei, aos 12 anos. Fui com meu irmão aos filmes Os Reis Do Ie-Ie-Iê e Submarino Amarelo e fiquei fascinado pela banda”, conta o apresentador do programa Lado B, na MTV. Na época, 1967, dinheiro para música era artigo escasso no orçamento da sua família. Para poder gastar com rock, ele precisava ser, digamos, criativo. “Torrava a grana do passe escolar”, diverte-se.

Mais tarde, o garoto que ainda atendia por Antonio Carlos Senefonte descolou um jeito melhor de obter os álbuns cobiçados. “Entrou um português na minha classe e apresentou Rolling Stones e Jimi Hendrix para todo mundo”, lembra. “Aí eu pegava os discos dele emprestados e não devolvia”, diz, levantando-se e voltando com a cópia do Beggar’s Banquet [dos Stones] na mão, para confessar em seguida: “Era dele”.

De jovem sem condições para comprar discos a esse maníaco que hoje acrescenta “uns 20 CDs e uns dez vinis” por mês à coleção, o caminho percorrido foi longo. Começou na seção de recursos humanos da gravadora Continental. “Um dia, o presidente da companhia estava atrás de uma música do Seals & Crofts, ‘Fresh Freaks’, que rolava na rádio e ninguém sabia de quem era. Como conhecia a canção, fui promovido para o departamento artístico”, conta. Seu acervo, já com mil títulos, ganhava a oportunidade de rápida ampliação.

Em 1977, a empolgação de Kid – então fã de rock progressivo – com a música dava sinais de cansaço. O punk o salvou. “Meu irmão que não deixou, senão eu ia trocar meus álbuns pelos lançamentos que chegavam na Wop Bop, a loja onde achei God Save The Queen, dos Sex Pistols.” Ao mesmo tempo, pintou também a new wave americana. Assim, no programa que manteve de 1979 a 1981, na rádio Excelsior, ele (estreando o apelido, óbvio para um tarado por discos) mandava “Blitzkrieg Bop”, dos Ramones, e “Psycho Killer”, dos Talking Heads.

A estas alturas, Kid recebia álbuns de todo mundo e comprava outros tantos. Mas nada que se comparou à fartura proporcionada pelo estouro de “Sou Boy”, em 1983. A bordo da banda Magazine, ele torrava o cachê dos shows em viagens para procurar mais discos. “Ia quatro vezes por ano para Londres e Nova York buscar coisas do Devo, Runaways, The Dickies…”, enumera. Com o fim do grupo, em 1987, Kid voltou para o rádio e iniciou na TV Cultura, nos programas Boca Livre e Som Pop, até 1993. Daí em diante, retornou às gravadoras, primeiro na Eldorado e atualmente na Trama.

Agora, imagine quantas vezes ele já não escutou a piadinha: “Ei, quando é que você vai mudar seu nome para CD?”. Na verdade, Kid resistiu ao laser. "Conheci em 1987, na Alemanha, mas só comprei um aparelho em 1992, porque ganhei uma caixa de singles dos Stones”, afirma. “Da década de 1990, por exemplo, muitas bandas só tenho em vinil”, diz, puxando LPs do Primal Scream, Happy Mondays e Inspiral Carpets. “Mesmo assim, devo ter uns mil discos nos dois formatos. Sou fã dos grafismos, das capas, da arte que se perde com o CD.”

Kid vai ilustrando suas predileções com uma infinidade de picture discs, tiragens limitadas, capas com dobras malucas. No meio de tantas opções, reconhece que os mais tocados são Dead Boys, New York Dolls e Blondie. “Não me canso de ouvi”, conta ele, que teve seu primeiro contato com a música pop aos sete anos, por intermédio de uma tia fã de Elvis Presley. Aliás, na estante de cima estão três caixas do Rei do Rock, lacradíssimas. “Não tive tempo de abrir”, alega, enquanto aponta para outras caixas igualmente virgens. Mas, só de poder sentar no sofá e contemplar cada item de sua coleção, Kid já está satisfeito.

Prateleira especial

Faces | A Nod Is as Good as a Wink
“Meu guru na época, 1971/72, o jornalista Ezequiel Neves, escreveu loucuras sobre a banda. Foi uma abertura para outros sons. E as pegadas de guitarra de Ron Wood me enlouqueciam. Com o piano boogie, então, era um casamento perfeito.”



Dead Boys | We Have Come for Your Children
“Eu tinha um programa de punk na rádio Excelsior e rolava essas coisas todas. Esse disco me chamou a atenção porque eles fizeram uma versão fantástica de ‘Tell Me’, dos Stones. Até hoje, é uma das minhas bandas prediletas.”



Chicago | VI
“Eles faziam uma fusão de jazz e rock com sabor pop que marcou minha adolescência. E eu sempre gostei da parte gráfica dos discos deles, adorava o jeito que eles exploravam o logotipo da banda. Esse é em papel-moeda, mas tem imitando ferro, chocolate, madeira…”



Raspberries | Side 3
“Minha cópia é importada, mas saiu no Brasil na mesma época (1973) pela EMI, com essa capa recortada e tudo. É uma das bíblias indispensáveis para se entender o power pop. É a banda do Eric Carmen, que depois virou um bregão.”



Streets (coletânea)
“Traz uma banda chamada Nose Bleeds, com Morrissey [Smiths] nos vocais e Billy Duffy [The Cult] e Vinny Reilly [Durutti Column] nas guitarras. Nunca saiu em CD, paguei 60 dólares em uma loja em Los Angeles. Na Inglaterra, não se acha ele por menos de 300 libras.”



Elephant’s Memory | Elephant’s Memory
“Era uma banda que chegou a acompanhar John Lennon, antes da Plastic Ono Band – inclusive o primeiro disco deles foi produzido por John e Yoko. Este é o segundo trabalho do grupo, regado a psicodelia total. Basta dar uma conferida na capa.”



(coluna publicada ontem no Diário Catarinense)